quando pequeno, eu gostava muito de jogar um jogo que faz muito tempo que não vejo alguém jogar: o jogo da memória.
lembro bem que jogava com minha mãe. ela sempre comprava esses jogos com diferentes figuras e personagens. e lembro bem de sempre jogar com ela.
ela falava que era bom jogar, pois isso estimulava e fortalecia a nossa memória.
não sei por que não vejo mais jogos da memória hoje em dia. não me lembro qual foi a última vez que vi alguém jogar.
outra coisa que ela sempre dizia que ajudava a memória era comer peixe. isso ela fala até hoje. só que, ao contrário do jogo, eu nunca fui muito fã de peixe. até como, mas não é muito a minha praia.
enfim, a memória… temos um grande problema de memória. quando não nos esforçamos, tendemos a esquecer facilmente as coisas que nos ocorrem.
é por isso que a Bíblia é repleta de advertências vindas da parte de Deus para que nós não nos esqueçamos das obras que Ele fez em nossas vidas. Ele disse isso em diversos momentos e contextos diferentes para o seu povo.
Deus ordena que o povo não se esqueça de suas obras
1. Deuteronômio 6:12
“Tenham cuidado para não se esquecerem do Senhor, que os tirou do Egito, da terra da escravidão.”
Deus adverte Israel contra o esquecimento depois de entrar na terra prometida e desfrutar de prosperidade. o perigo era receber as bênçãos e deixar de se lembrar daquele que as concedeu.
2. Deuteronômio 8:2
“Lembrem-se de como o Senhor, seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto durante estes quarenta anos […]”
a caminhada pelo deserto deveria ser lembrada como parte da formação espiritual de Israel. o povo precisava interpretar sua própria história à luz da ação de Deus.
3. Deuteronômio 8:11–14
“Tenham cuidado para não se esquecerem do Senhor, seu Deus […]”
esse trecho é particularmente importante porque relaciona o esquecimento de Deus à prosperidade material. quando Israel estivesse satisfeito, com casas, rebanhos e riquezas, deveria tomar cuidado para não se ensoberbecer e esquecer o Senhor.
4. Deuteronômio 4:9
“Tão somente tenham cuidado e guardem bem a sua alma, para que não se esqueçam das coisas que os seus olhos viram, e para que elas não se afastem do seu coração todos os dias da sua vida. Ensinem-nas aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos.”
aqui aparecem três dimensões da memória da fé:
- memória pessoal: não esquecer o que foi testemunhado.
- memória contínua: conservar essas coisas no coração ao longo da vida.
- memória comunitária: transmitir o conhecimento às gerações seguintes.
5. Salmo 103:2
“Bendiga, minha alma, o Senhor, e não se esqueça de nem um só de seus benefícios.”
o salmista convoca a própria alma a recordar os benefícios de Deus. a memória, nesse sentido, não é apenas intelectual: ela conduz à adoração e à gratidão.
e, indo além dos versículos em que Deus adverte sobre o não esquecimento, o próprio Deus, que é um Deus festivo, instaurou diversos rituais para que seu povo se lembrasse de suas obras.
como, por exemplo:
Êxodo 12:14 — a instituição da páscoa
“Este dia lhes será por memorial, e vocês o celebrarão como solenidade ao Senhor; nas suas gerações o celebrarão por estatuto perpétuo.”
Deus institui uma celebração anual para que a libertação do Egito permaneça na memória coletiva de Israel. não se trata apenas de recordar espontaneamente, mas de estabelecer uma prática recorrente de memória.
Êxodo 12:24–27 — os filhos perguntam o significado do ritual
quando os filhos perguntassem o significado daquela celebração, os pais deveriam explicar que ela recordava o livramento realizado pelo Senhor quando feriu os egípcios e poupou as casas dos israelitas.
o ritual, portanto, também servia como instrumento de ensino: a prática suscitava perguntas, e as perguntas transmitiam a história da redenção.
ou até mesmo a festa dos pães sem fermento, em êxodo 13:3, 8–10.
aqui, Moisés ordena ao povo que se lembre do dia em que saiu do Egito e explique aos filhos o significado da celebração. o versículo 9 associa essa lembrança a um sinal na mão e a um memorial diante dos olhos, enquanto os versículos 8 e 10 enfatizam a instrução dos filhos e a observância anual da celebração.
existem ainda muitas outras, mas eu pararei por aqui.
o perigo do esquecimento
um dos motivos que fazem Deus ser tão enfático com a questão dos memoriais é que, sem eles, nos esquecemos. e, esquecendo, passamos a ter um comportamento de ingratidão diante daquilo que Deus fez em nós.
ingratidão, segundo o dicionário, é a falta de reconhecimento do bem oferecido, caracterizada pelo desinteresse em retribuir ou valorizar o esforço alheio.
é ser indiferente, desvalorizar e não reconhecer aquilo que alguém fez por nós. neste caso, aquilo que Deus fez por nós.
você se lembra de quem era antes de Deus?
se sim, mudou muito em relação a quem você é hoje?
não se esqueça do que o Senhor fez por você
não se esqueça de onde você estava, de quem você era e de como o Senhor o conduziu até aqui.
não se esqueça das orações que você fez, das lágrimas que derramou, dos momentos em que não sabia o que fazer e, ainda assim, experimentou o cuidado de Deus.
não se esqueça das vezes em que você pensou que não conseguiria continuar, mas encontrou forças para dar mais um passo.
e, principalmente, não se esqueça de que você não chegou até aqui sozinho.
talvez hoje algumas dessas coisas já não pareçam tão importantes. talvez aquilo que um dia foi motivo de lágrimas e súplicas tenha se tornado apenas uma lembrança distante. talvez você já não tenha a mesma disposição para agradecer por coisas que, no passado, eram motivo de oração.
é justamente aí que mora o perigo: acostumamo-nos tanto com a bondade de Deus que passamos a tratá-la como algo comum.
foi por isso que Deus ordenou tantas vezes ao seu povo que se lembrasse. não porque Ele precisasse lembrá-los de algo que havia feito, mas porque eles precisavam se recordar de quem Ele era e do que havia realizado por eles.
e nós não somos tão diferentes daquele povo.
também precisamos de memoriais. precisamos de momentos em que paramos, olhamos para trás e reconhecemos a mão de Deus em nossa história.
precisamos contar aos nossos filhos, aos nossos irmãos e àqueles que caminham conosco aquilo que o Senhor fez. precisamos cultivar uma memória que alimente a nossa fé, fortaleça a nossa gratidão e nos ajude a confiar nele diante daquilo que ainda não compreendemos.
afinal, se nos esquecemos facilmente das coisas boas que recebemos, também corremos o risco de enfrentar as dificuldades do presente como se Deus nunca tivesse sido fiel no passado.
portanto, não deixe que a correria da vida, as preocupações do cotidiano ou as bênçãos que você recebeu tornem a sua memória curta.
lembre-se de onde o Senhor o tirou, de como Ele o sustentou e de tudo aquilo que, pela sua graça, Ele tem feito em sua vida.
e, quando a memória falhar, volte às Escrituras. recorde as suas promessas. conte novamente os seus feitos. reúna-se com o povo de Deus para adorá-lo. cultive práticas que o ajudem a manter viva a lembrança da sua fidelidade.
porque um coração que se esquece facilmente das obras de Deus também corre o risco de deixar de reconhecer a grandeza daquele que as realizou.
que não sejamos um povo de memória curta, mas um povo que se lembra, agradece e anuncia as obras do Senhor.
“Bendiga, minha alma, o Senhor, e não se esqueça de nem um só de seus benefícios.”
(Salmo 103:2)
Deus abençoe.
até mais.