um lugar para você ler sobre Jesus. um lugar para você ler sobre a palavra.

mestre, quando dizes essas coisas, insulta-nos também…

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o evangelho é a mensagem mais linda que poderia existir. a coisa mais magnífica que já aconteceu. o evangelho é doce. é belo. traz-nos salvação. leva-nos novamente ao caminho, ao Criador.

quantas coisas boas o evangelho possui, não é mesmo?

mas existe, porém, uma parte de que nem todos gostam. nem todos estão dispostos a seguir. e é disso que quero falar neste texto: das duas partes que, ao meu ver, existem no evangelho de Jesus Cristo – o conforto e o confronto.

a mensagem do evangelho

a queda, o pecado que cometemos, nos tornou seres completamente depravados – você concordando ou não.

e isso nos afastou do Deus Criador, santo e relacional, com quem tínhamos comunhão. o pecado nos colocou em uma condição de incapacidade, não conseguimos nos aproximar de Deus por nossos próprios méritos, nem limpar a nós mesmos dos nossos próprios pecados para, então, nos aproximarmos dEle.

essa é a verdade e condenação que estavam sobre toda a humanidade e que ainda permanecem sobre aqueles que não estão em Cristo Jesus.

mas Deus, em seu grandioso amor, estabeleceu um plano e enviou seu Filho para levar sobre si a condenação que estava sobre nós (colocada lá por nós mesmos) e, assim, nos reconciliar com Deus.

essa é a história do evangelho.

uma boa notícia de que, embora o pecado tenha nos afastado de Deus e sejamos incapazes de nos reconciliar com Ele por nossos próprios méritos, Deus, em seu amor, enviou Jesus Cristo para morrer em nosso lugar e ressuscitar, vencendo o pecado e a morte.

agora, por meio da fé e do arrependimento, somos reconciliados com Deus, recebemos perdão e uma nova vida — não porque merecemos, mas pela graça.

linda mensagem. perfeita. confortante.

o conforto

o evangelho é confortável para nós justamente porque começa com uma notícia profundamente desconfortável: somos pecadores, não conseguimos nos salvar e precisamos de arrependimento.

mas termina com uma notícia radicalmente confortável: Deus nos ama mesmo assim e, em Cristo, oferece perdão, reconciliação e uma nova vida pela graça.

ele é confortável porque:

  • não precisamos provar nosso valor para Deus — Cristo já fez por nós o que não poderíamos fazer;
  • nosso pecado não precisa ser escondido — podemos confessá-lo e encontrar perdão;
  • nossa identidade não depende do nosso desempenho — somos recebidos pela graça;
  • não precisamos controlar o futuro — podemos confiar em Deus;
  • a morte não tem a palavra final — existe esperança de ressurreição e vida eterna.

novamente, é belo!

mas existe uma ironia importante no evangelho: ele é completamente confortável para o pecador arrependido, mas extremamente desconfortável para o nosso ego.

porque a mesma mensagem que diz “você é amado” também diz “você precisa mudar”.

e é aí que pega muita gente…

o desconforto

o evangelho é desconfortável porque ele não apenas consola quem somos, ele confronta quem somos.

ele nos diz que:

  • não somos tão bons quanto imaginamos — o problema não está apenas “nos outros”, mas também em nós;
  • somos pecadores e precisamos de arrependimento;
  • não somos o centro da história — Deus é;
  • não podemos salvar a nós mesmos — precisamos depender da graça;
  • Jesus não é apenas Salvador, mas Senhor — portanto, segui-lo significa abrir mão da nossa autonomia, dos nossos desejos e das nossas vontades;
  • nem todos os nossos desejos são bons — alguns precisam morrer;
  • perdoar quem nos feriu faz parte do caminho;
  • amar o inimigo faz parte do caminho;
  • carregar a cruz faz parte do discipulado;
  • e, talvez o mais difícil, Deus pode querer algo diferente daquilo que nós queremos.

o evangelho é a notícia mais confortável para quem reconhece que precisa de graça, mas uma das notícias mais desconfortáveis para quem quer continuar sendo seu próprio senhor.

e gostaria de destacar um dos tópicos que coloquei acima: carregar a cruz.

o que isso quer dizer?

porque, acredite, isso é necessário para se viver com Cristo. ele pede quase nada de quem não o segue, mas, para aqueles que o seguem, ele pede absolutamente tudo.

carregar a cruz faz parte do discipulado

seguir Jesus não significa apenas receber aquilo que ele pode nos dar, mas também entregar aquilo que ele nos pede.

quando Jesus diz:

se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. (Lucas 9:23)

ele deixa claro que discipulado envolve renúncia.

a cruz representa a morte do nosso próprio governo: nossos desejos, nosso orgulho, nossa necessidade de controle e até alguns sonhos que insistimos em colocar acima da vontade de Deus.

o evangelho é confortável porque Cristo carregou a cruz por nós, mas é desconfortável porque, depois disso, ele nos chama a carregar a nossa com ele.

é desconfortável. é doído.

e foi exatamente um desconforto como esse que sentiu um dos peritos da Lei em Lucas 11:45.

mestre, quando dizes essas coisas, insulta-nos também

Jesus estava confrontando os fariseus. havia acabado de pronunciar uma série de “ais” contra eles, denunciando sua hipocrisia, sua religiosidade exterior e o peso que colocavam sobre os outros.

então, um dos peritos da Lei, ouvindo aquilo, responde:

Mestre, quando dizes essas coisas, insulta-nos também.

é uma frase curiosa.

ele praticamente está dizendo: “Jesus, você está falando deles, mas nós também estamos sendo atingidos. está batendo neles, mas está doendo em nós.”

e, nesse caso, Jesus poderia ter recuado.

muito provavelmente, grande parte das pessoas, movidas pelo natural impulso de querer agradar a todos, recuaria — inclusive grandes mestres da história.

ele poderia ter amenizado suas palavras, dizendo:

não, não foi isso que eu quis dizer. vocês são pessoas boas, não se preocupem.

mas não. Jesus vai além. no versículo seguinte, ele responde:

ai de vocês também, peritos da Lei…

e continua descendo a madeira.

por quê? por que ser tão duro com eles?

simples: porque Jesus não veio para ser um mestre que diz aquilo que queremos ouvir. ele veio para ser o Mestre que diz aquilo que precisamos ouvir.

e talvez esse seja um dos maiores problemas que temos com Jesus.

nós gostamos quando ele nos consola. gostamos quando ele nos lembra que somos amados, perdoados, aceitos e cuidados. gostamos do Jesus que acalma a tempestade.

mas e quando ele é quem provoca a tempestade dentro de nós?

e quando a Palavra dele toca justamente naquela área que não queremos entregar?

quando ele diz para perdoar alguém que não queremos perdoar?

quando diz para amar o inimigo?

quando diz para negar a nós mesmos?

quando nossos sonhos precisam ser entregues à Ele?

quando percebemos que o problema não está apenas nos outros, mas também em nós?

Mestre, quando dizes essas coisas, insulta-nos também.

talvez essa seja uma das frases mais honestas que podemos dizer diante de Jesus.

às vezes, ser confrontado por Cristo é a evidência de que estamos realmente ouvindo Cristo.

o problema não é quando a Palavra nos incomoda. o problema é quando ela deixa de nos incomodar porque já não estamos dispostos a permitir que ela nos transforme.

é quando, diante do confronto, mudamos nossa opinião sobre Cristo, tal qual aconteceu com as pessoas em João 6.

a multidão vai. os discípulos ficam

Jesus pregava a verdade, e aqueles que o seguiam por causa dos milagres e das coisas boas que ele havia feito começaram a abandoná-lo. foram embora porque suas palavras eram duras demais.

diante desse cenário, vendo as pessoas indo embora e o prestígio que tinha diminuindo, muitos mudariam o discurso. retratariam-se. tentariam agradar novamente.

porque dói ser rejeitado.

mas Jesus, novamente, continuou.

e, quando quase todos estavam indo embora, olhou para os doze discípulos e perguntou algo como:

vocês também querem ir? se quiserem, podem ir

e Pedro responde:

Senhor, para quem iremos? tu tens as palavras de vida eterna. (João 6:68)

essa é a postura de um verdadeiro discípulo.

o verdadeiro discípulo não é aquele que nunca se sente ofendido por Jesus. é aquele que, quando Jesus o confronta, permanece.

porque entende que existe uma diferença entre ser ferido pelo mundo e ser ferido pelo Médico. o mundo pode nos ferir para nos destruir. Cristo nos confronta para nos transformar.

e talvez seja justamente por isso que precisamos de um mestre que, algumas vezes, nos ofenda.

não porque ele deixou de nos amar, mas porque ele nos ama demais para deixar que continuemos sendo exatamente quem somos.

então, entenda: o evangelho confronta. e não há como ser discípulo sem ser confrontado.

mas quem você verdadeiramente é – joio ou trigo – será revelado a partir da maneira como você reage ao confronto que o Senhor faz por meio de sua Palavra.

quando Cristo tocar naquilo que você não quer entregar, você vai embora?

ou vai permanecer e dizer:

“Senhor, para quem iremos? tu tens as palavras de vida eterna.”

reflita sobre isso.

Deus abençoe.

até mais.