Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós.
1 João 4:12
essa afirmação de João é bela, mas, ao mesmo tempo, um tanto controversa. é bela porque nos mostra a essência do Senhor e de nosso relacionamento para com Ele e os outros: o amor.
por outro lado, é controversa porque João está fazendo uma afirmação aparentemente paradoxal: “ninguém jamais viu a Deus”, mas imediatamente depois diz que Deus permanece em nós e que seu amor é aperfeiçoado em nós.
um tanto controverso, não?
mas é isso, também, que faz ser belo: essa relação entre Deus invisível → amor visível → testemunho ao mundo.
entendendo a fundo
o versículo 12 não está isolado, ele é uma peça central do argumento. por isso, para interpretar corretamente este texto, precisamos olhar os versos em volta, principalmente para 1 João 4:7–21.
nesta seção do capítulo, João está desenvolvendo uma linha de raciocínio:
- Deus é amor (v. 8);
- Deus manifestou seu amor enviando seu Filho (v. 9–10);
- portanto, aqueles que receberam esse amor devem amar uns aos outros (v. 11);
- embora ninguém tenha visto Deus, seu amor pode ser manifestado na comunidade cristã (v. 12);
- o Espírito confirma que Deus permanece em nós (v. 13);
- os cristãos testemunham que o Pai enviou o Filho como Salvador (v. 14);
- portanto, permanecer em Deus implica permanecer no amor (v. 16).
bem, não vou aqui expor exegesicamente o verso, pois não é essa a proposta do texto. contudo, quero ressaltar parte da aplicação deste texto para nossas vidas hoje.
João nos apresenta uma verdade profundamente significativa: ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus que é invisível escolheu tornar o seu amor conhecido através daqueles que nEle permanecem.
isso significa que a nossa vida pode se tornar uma espécie de vitrine do caráter de Deus diante de um mundo que, muitas vezes, não sabe sequer como procurá-lo.
há pessoas que talvez nunca entrem em uma igreja, nunca abram uma bíblia ou nunca tenham interesse em conhecer teologia.
mas elas encontrarão cristãos. encontrarão a nossa maneira de falar, de servir, de perdoar, de tratar aqueles que não podem nos oferecer nada em troca e, principalmente, de amar.
isso é belo, não? mas, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade…
o refrão que me tocou
um dos artistas que mais gosto e escuto constantemente é o Rodolfo Abrantes. é um estilo de música gospel diferente dos mais populares, raramente tocado nas igrejas e quase inimigo dos algoritmos, não costuma explodir.
ainda assim, eu gosto. é um rock “não tão rock” como Oficina G3 ou banda Resgate, mas ainda assim é um bom rock — mais doce aos ouvidos, na minha opinião.
e há uma música que já ouvi milhares de vezes, “Na Gravidade da Presença”. já ouvi muito. mas hoje, justamente hoje, um pequeno trecho dessa música chamou minha atenção como nunca antes.
este trecho sempre esteve ali, em todas as vezes em que escutei. no entanto, nunca tinha reparado tão profundamente nele como agora.
é um trecho em que ele diz, no refrão:
faz de mim esse lugar onde o mundo pode encontrar o amor de seu Criador.
esse pequeno trecho me fez refletir. na verdade, me provocou sobre o que as pessoas sentem quando me olham. o que as pessoas buscam em mim? será que em mim elas sentem o amor do Criador?
guardadas as proporções e maneiras diferentes, o verso dessa música está falando, basicamente, da mesma coisa que João falou: nós como instrumento e sinal do amor de Deus ao mundo.
é uma reflexão profunda…
vivemos um mundo em que anseia algo que não sabe. existe uma falta, uma ausência, mas não existe o conhecimento sobre o que seria essa ausência ou até mesmo de que há uma ausência.
como diz o autor de Eclesiastes, o Senhor colocou a eternidade no coração do homem. este é um anseio pelo Criador; é uma inclinação natural para algo que transcende o material ou qualquer coisa que o mundo possa nos oferecer.
Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.
Eclesiastes 3:11
as pessoas querem a Deus, mas não conseguem perceber ou achar. e isso faz de nós, muitas vezes, o lugar perfeito onde elas podem encontrar o amor do Criador.
elas não conhecem a Deus. mas, quando amamos como devemos, Deus se manifesta e é mostrado através de nós. quando amamos, estamos refletindo o amor, que é o Senhor.
seja uma pessoa do trabalho, escola, faculdade, vizinho… seja nos dias bons ou maus… que possamos ser esse lugar em que as pessoas encontram o amor do Criador. que sejamos esse lugar de afago para aqueles que precisam.
acho que foi um pouco disso que Jesus quis nos ensinar quando disse que somos a luz do mundo.
Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.
Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado e, assim, ilumina todos os que estão na casa.
Da mesma forma, brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem a seu Pai, que está nos céus.
Mateus 5:14-16
tudo se resume ao amor. se amar como devemos, o mundo verá, em nós, o amor de seu Criador.
mas aí há um ponto a se ressaltar: embora tudo se resuma ao amor, o chamado de João não é simplesmente para que sejamos pessoas mais amáveis.
é para que o amor que recebemos de Deus encontre em nós um lugar onde possa ser manifestado. o amor de Deus não deve terminar em nós, mas passar por nós. é mais sobre sermos um canal, do que compartilhadores de amor próprio.
é nesse sentido que a frase “faz de mim esse lugar onde o mundo pode encontrar o amor de seu Criador” ganha significado.
não estamos dizendo que somos a fonte desse amor, mas que desejamos ser instrumentos através dos quais esse amor se torne perceptível.
que, ao encontrar-nos, alguém possa encontrar mais do que a nossa personalidade, nossas opiniões ou nossa religiosidade. que possa encontrar algo de Cristo. que o nosso amor, mesmo imperfeito, aponte para aquele cujo amor é perfeito.
porque, se ninguém jamais viu a Deus, talvez uma das maiores responsabilidades da nossa vida seja permitir que aquilo que o mundo não pode ver seja percebido na maneira como vivemos.
Deus abençoe.
até mais.