há algumas semanas, no meu trabalho, estava conversando com uma pessoa que expressou sua opinião dizendo que a bíblia era um livro machista e que diminuía o valor das mulheres dentro de sua narrativa. a opinião me surpreendeu. embora existam muitas falácias por aí, nunca tinha ouvido essa tão de perto.
e, como bom apreciador da palavra, comecei a explicar que acontece o oposto: a bíblia não apenas deu significado à existência da mulher, como quebrou paradigmas, reafirmou sua importância e a exaltou como nenhum outro texto da história.
não existe no mundo um livro que valorize tanto a mulher quanto a bíblia. mas o problema é que as pessoas não sabem disso — e é justamente por isso que escrevo este texto. ele marca o início de uma nova categoria aqui no blog: “Achismo 3:16” — uma série dedicada a tratar de falácias e opiniões errôneas sobre a bíblia. muitas vezes por ignorância; outras, por pura imbecilidade mesmo.
o Achismo 3:16 nasce porque nem tudo que parece bíblico, é. é uma série para desmascarar ideias tortas e, à luz da Palavra, revelar o que Deus realmente quis dizer. não com arrogância, mas com zelo. não para impor uma visão, mas para defender a verdade. então, bora lá…
- sobre a bíblia ser machista — essa é, definitivamente, uma grande falácia.
e o que é uma falácia, afinal?
segundo o Google,
falácia é um raciocínio inválido que se parece com um argumento válido, podendo ser usado intencionalmente para enganar ou, inconscientemente, por falta de habilidade.
a palavra vem do latim fallare, que significa “enganar”. ou seja: falácia é uma grande enganação disfarçada de verdade.
quando falamos de falácias sobre a bíblia, o erro geralmente não está no texto, mas na leitura. pessoas interpretam versículos isolados, sem contexto histórico, cultural ou espiritual, e acabam distorcendo Deus, Jesus e o propósito das Escrituras.
a bíblia não é um livro de opiniões, é um livro de revelações. e quando alguém tenta moldar sua mensagem às próprias convicções, o resultado é sempre o mesmo: um cristianismo mal interpretado.
foi assim com o tema da mulher e é assim com tantos outros: dinheiro, autoridade, sexo, amor, justiça, perdão… todos esses assuntos, quando lidos pela lente do achismo, viram caricaturas da verdade.
enfim, vamos desconstruir essa falácia, mas antes vejamos as mais comuns referentes ao machismo:
o que as pessoas ressaltam ao dizerem que a bíblia é machista:
quando alguém afirma que a bíblia é machista, geralmente está repetindo ideias de segunda mão — frases prontas, citações descontextualizadas ou interpretações modernas aplicadas a um texto antigo, mas ainda muito atual. entre as falácias mais comuns, estão:
- a submissão da mulher ao homem, mencionada em textos como efésios 5:22 — “mulheres, sujeitem-se a seus maridos como ao Senhor”. muitos leem isso como uma forma de dominação, quando, na verdade, o texto fala sobre amor, respeito e equilíbrio dentro do casamento, e não sobre hierarquia.
- a liderança masculina nas escrituras, pois a maioria dos profetas, reis e apóstolos foram homens. esse fato leva alguns a concluírem que Deus teria reservado papéis secundários às mulheres, ignorando o contexto histórico e cultural de cada época e, principalmente, as inúmeras mulheres que Deus levantou como líderes, juízas, profetisas e referências espirituais.
- leis e costumes do antigo testamento, que, em muitos casos, refletiam a sociedade patriarcal daquele tempo. só que, em vez de reforçar o machismo, Deus foi progressivamente revelando princípios que, aos poucos, libertavam a mulher daquela estrutura social opressora — até culminar em cristo, que rompeu completamente essa lógica.
- o silêncio da mulher nas igrejas, citado em 1 coríntios 14:34. mais uma passagem usada fora do contexto, sem considerar o ambiente cultural da igreja de Corinto e o propósito da orientação de Paulo naquele momento específico.
- a ausência de mulheres entre os doze apóstolos, como se isso indicasse exclusão, quando, na verdade, Jesus rompeu as barreiras culturais de sua época ao ter mulheres como discípulas, apoiadoras e testemunhas da sua ressurreição, algo impensável para o contexto judaico daquele tempo.
- “as mulheres são culpadas pelo pecado original” — devido ao pecado de Eva, muitos reduzem a mulher à imagem de quem “trouxe o pecado ao mundo”, ignorando que a queda é atribuída a Adão (romanos 5:12) e que, por meio de uma mulher, viria o redentor do mundo (gênesis 3:15).
enfim, acredito que essas sejam as falácias mais populares no meio. é bem provável que existam muitas outras, mas acredito que essas são as mais famosas e, assim como qualquer outra, são completamente equivocadas.
a mulher como “Ezer Kenegdo”: uma expressão que muda tudo
quando olhamos o relato da criação, em Gênesis 2:18, Deus diz:
Não é bom que o homem esteja só; farei para ele uma ajudadora idônea.
quando, em nosso contexto, olhamos a palavra “ajudadora”, é muito natural pensarmos que Deus fez a mulher como um ser secundário ao homem. afinal, se você é ajudante, muito provavelmente é porque não tem patente para ser o responsável, então apenas ajuda.
este é o pensamento de nossa época e, de certa forma, está certo, pois é como utilizamos a palavra “ajudante”.
mas quando vamos ver o texto bíblico original, o termo hebraico utilizado para “ajudadora idônea” (conforme traduzido na maioria das versões bíblicas) é “Ezer Kenegdô” (עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ), e sua profundidade foi muito mal traduzida ao longo dos séculos.
a palavra “Ezer” significa “ajuda”, mas não no sentido de subordinação, como alguém inferior ou servil. na verdade, “Ezer” é usada em várias passagens do Antigo Testamento para descrever o próprio Deus como ajuda poderosa e salvadora. por exemplo:
O Senhor é o meu auxílio (Ezer) e o meu libertador
Salmos 70:5
Bem-aventurado é aquele cujo auxílio (Ezer) é o Deus de Jacó
Salmos 146:5
Ouve, ó Senhor, a voz de Judá, e introduze-o no seu povo; as suas mãos sejam suficientes para ele, e sê tu, Senhor, o seu auxílio (Ezer) contra os seus inimigos.
Deuteronômio 33:7
Elevo os meus olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro (Ezer) vem do Senhor, que fez o céu e a terra.
Salmos 121:1–2
Bem-aventurado aquele cujo auxílio (Ezer) é o Deus de Jacó, cuja esperança está no Senhor, seu Deus.”
Salmos 146:5
A tua destruição, ó Israel, vem de ti mesmo; mas em mim está o teu auxílio (Ezer).
Oséias 13:9
com isso, entendemos que: se “Ezer” é usada para falar do auxílio divino, não pode significar algo menor, afinal, em hipótese alguma, Deus é menor que Israel ou qualquer parte de sua criação. a palavra, então, representa uma ajuda forte, essencial e salvadora, necessária para ajudar a Israel em algo que aquela nação não conseguiria sozinha.
tenho certeza que agora está começando a fazer sentido para você o uso da palavra para descrever a mulher. mas não acabamos aqui, prossigamos…
a segunda palavra, “kenegdo”, vem de “neged”, que significa “correspondente a”, “diante de”, “igual em posição”. portanto, “ezer kenegdo” descreve uma ajuda que está frente a frente, equivalente, complementar — não abaixo, mas ao lado.
a tradução mais fiel seria algo como:
“Farei para ele uma auxiliadora que lhe corresponda”
ou
“uma força equivalente a ele”.
em outras palavras, a mulher foi criada como uma parceira de igual valor, dotada de força e propósito complementar ao do homem. o texto original jamais sugere inferioridade — pelo contrário, comunica equilíbrio, mutualidade e interdependência. a mulher é uma “ezer” — uma força divina ao lado do homem — e “kenegdo” — correspondente, que o completa e o desafia.
assim, desde o Éden, a Bíblia estabelece o valor e a dignidade da mulher como parte da imagem de Deus (Gênesis 1:27). o machismo, portanto, não é bíblico — é humano, cultural, e totalmente distorcido da intenção original do Criador.
a Bíblia e as mulheres que mudaram a história
se a Bíblia fosse um livro machista, suas páginas jamais estariam repletas de mulheres que mudaram destinos, nações e o próprio curso da história da fé. ao contrário do que muitos pensam, a Bíblia apresenta uma galeria de mulheres atuantes, corajosas, sábias e espiritualmente decisivas. e o modo como elas são retratadas é de uma dignidade impressionante, especialmente quando comparado ao contexto cultural da época.
Raabe: a coragem que redimiu uma cidade (Josué 2; Hebreus 11:31)
Raabe era uma prostituta em Jericó — uma mulher marginalizada, invisível e desprezada pela sociedade. mas quando ouviu sobre o Deus de Israel, ela creu. arriscando a própria vida, escondeu os espias israelitas, e por causa de sua fé, sua casa foi poupada na destruição da cidade.
mais do que isso: Raabe foi inserida na genealogia de Jesus Cristo (Mateus 1:5). a antes prostituta cananeia já tinha sido predestinada por Deus para ser um ponto-chave na linhagem do salvador do mundo. isso não é machismo — é graça. é a prova de que, diante de Deus, o passado não define o propósito.
Rute: a lealdade que gerou redenção (Rute 1–4)
Rute era moabita — estrangeira, viúva e pobre. mas sua fidelidade à sogra Noemi e sua fé no Deus de Israel transformaram sua história. ela se tornou ancestral do rei Davi e, consequentemente, da linhagem de Cristo. ela é um retrato de como Deus valoriza o caráter e o amor leal — não o status, o gênero ou a origem.
Débora: a líder e juíza de Israel (Juízes 4–5)
em uma época em que Israel estava dominado e espiritualmente confuso, Deus levantou uma mulher como juíza, profetisa e comandante militar. Débora não apenas julgava o povo sob uma palmeira, ela liderou o exército à vitória, inspirando coragem a Baraque, um homem que hesitou em ir sem ela.
sua canção de vitória é um dos textos mais poderosos do Antigo Testamento, exaltando a fidelidade de Deus e a bravura de uma mulher que não se calou diante da covardia masculina. Débora é a antítese do machismo, ela mostra que liderança feminina não é exceção para Deus, é instrumento.
Ester: a rainha que salvou seu povo (Ester 4:14)
Ester é o retrato da coragem silenciosa. uma jovem judia que, mesmo sob risco de morte, enfrentou o rei para salvar seu povo. sua frase “se perecer, pereci” ecoa como um manifesto de fé e bravura. Ester usou sua posição não para benefício próprio, mas para cumprir o propósito divino. Deus usou uma mulher para livrar Israel de um genocídio. isso não é machismo. é protagonismo.
Jesus: o rompedor do machismo cultural
se no Antigo Testamento as mulheres já tinham um papel importante, em Jesus isso atinge o auge.
em uma cultura judaica rigidamente patriarcal, Jesus fez o impensável: tratou as mulheres como discípulas, herdeiras e anunciadoras da verdade.
as discípulas
Lucas 8:1–3 mostra claramente que mulheres acompanhavam Jesus em seu ministério e o sustentavam com seus recursos — algo radicalmente fora do padrão da época. Maria Madalena, Joana, Susana e outras foram suas seguidoras fiéis.
após a ressurreição, a primeira pessoa a quem Jesus apareceu foi uma mulher — Maria Madalena — e foi a ela que Ele confiou o anúncio da ressurreição (João 20:16–18). no mundo antigo, o testemunho de uma mulher nem era aceito judicialmente, ou seja, para a sociedade o testemunho dela era inválido. ainda sim Jesus fez da mulher a primeira pregadora da ressurreição.
a mulher adúltera (João 8:1–11)
enquanto os homens queriam apedrejar a mulher, Jesus a defendeu, expôs a hipocrisia deles e a restaurou.
“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.”
Jesus não relativizou o erro, mas recusou a injustiça seletiva. Ele viu nela um ser humano digno de misericórdia, não um objeto de vergonha pública.
a mulher samaritana (João 4)
ao falar com essa mulher, Jesus rompeu três barreiras ao mesmo tempo: cultural (ela era samaritana), religiosa (considerada impura) e moral (tinha múltiplos relacionamentos). mesmo assim, Ele a tratou com respeito, revelou sua identidade messiânica e a tornou missionária de sua cidade. ela foi a primeira evangelista da história. enquanto muitos a evitariam, Jesus a enviou.
Maria em Caná (João 2)
no primeiro milagre de Jesus — transformar água em vinho — há um diálogo discreto, mas profundo entre Ele e Maria, sua mãe. ela percebe a necessidade e intercede. e mesmo após a resposta enigmática (“ainda não é chegada a minha hora”), Jesus atende ao pedido dela. isso mostra que Jesus não desconsidera a voz feminina, mas a integra em seu plano divino. o primeiro milagre de Cristo foi iniciado pela sensibilidade e fé de uma mulher.
Paulo e Corinto: o contexto mal interpretado
por fim, para rebater um dos mais famosos textos e terminar de desarmar as falácias citadas, muitos dos textos usados para dizer que “a Bíblia é machista” vêm das cartas de Paulo, especialmente as dirigidas aos coríntios e aos efésios. mas é preciso entender o contexto.
Corinto era uma cidade grega marcada pela imoralidade, idolatria e culto a deuses femininos, onde as sacerdotisas se prostituíam nos templos. Paulo, ao orientar que as mulheres fossem “silenciosas” (1 Coríntios 14:34), não estava impondo submissão universal, mas tratando de ordem e reverência no culto, num ambiente em que havia confusão e interrupções.
nas mesmas cartas, ele reconhece e saúda mulheres líderes, como Febe (Romanos 16:1), Priscila (Atos 18:26) e Júnia (Romanos 16:7) — esta última chamada “notável entre os apóstolos”.
o mesmo Paulo que é acusado de machismo, foi o que escreveu:
“Em Cristo, não há homem nem mulher; porque todos sois um só em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28)
ou seja: o evangelho de Cristo é o fim do machismo e de toda hierarquia de valor entre gêneros.
a Bíblia não diminui a mulher — ela a eleva ao lugar de parceira divina no propósito de Deus.
E se há algo que o “Achismo 3:16” quer deixar claro é isso:
nem tudo o que parece bíblico, é.
Mas tudo o que é verdadeiramente bíblico — liberta.
Deus abençoe.
até mais.