poucos capítulos na bíblia descrevem tão profundamente o drama interior do ser humano, referente à luta entre nossos desejos naturais e nossas convicções, quanto Romanos 7. toda vez que leio este capítulo, surge em mim um grande sentimento de conexão com o texto, tristeza com a minha condição e alegria com a graça proveniente de Deus.
neste capítulo, Paulo abre a alma e expõe uma tensão que todo cristão conhece: o desejo de fazer o bem e a incapacidade de cumpri-lo plenamente. é triste o fato de não conseguirmos ser aquilo que almejamos, de fazer aquilo que queremos. há um forte sentimento de melancolia ao vermos que, na verdade, somos bem piores do que achamos ou gostaríamos.
gostaria de analisar este capítulo e falar sobre como tudo isso se liga com uma seção muito importante da história da teologia: a santidade progressiva.
este texto faz parte de uma série de 3 “breves estudos”, dos quais falaremos sobre santidade progressiva. então, se você está lendo ele, acompanhe os próximos textos também.
vejamos…
contexto de Romanos 7
a epístola aos Romanos é, talvez, a exposição teológica mais sistemática do apóstolo Paulo. diferente de outras cartas, ela não surge em resposta a uma crise pontual ou a um conflito disciplinar específico da igreja romana, mas como uma exposição cuidadosamente construída do evangelho, escrita a uma igreja que Paulo ainda não havia visitado pessoalmente. a igreja de Roma, diferente das outras que Paulo escreveu, não foi plantada por ele. seu objetivo, na verdade, era preparar o terreno teológico e pastoral para uma futura visita missionária, fortalecer a unidade da comunidade cristã em Roma e alinhar sua compreensão do evangelho à revelação da justiça de Deus em Cristo.
a igreja de Roma possuía uma composição singular. formada inicialmente por judeus da diáspora convertidos ao cristianismo, ela passou por uma transformação significativa após o edito do imperador Cláudio (c. 49 d.C.), que expulsou os judeus da cidade. durante esse período, a igreja tornou-se majoritariamente gentílica, ou seja, composta de “não judeus”.
quando os judeus retornaram a Roma após a morte de Cláudio, encontraram uma comunidade cristã moldada por práticas, lideranças e compreensões teológicas gentílicas. e isso gerou tensões profundas sobre identidade, autoridade espiritual e, sobretudo, sobre o papel da lei de Moisés na vida cristã.
é nesse contexto que Paulo escreve Romanos para responder, de forma indireta, porém decisiva, à pergunta central que dividia aquela igreja: qual é o lugar da lei na salvação?
judeus convertidos ainda viam a lei como elemento salvífico; gentios, por sua vez, arriscavam desprezá-la completamente. Paulo precisava afirmar, ao mesmo tempo, a santidade da lei e a sua incapacidade de produzir justiça.
dentro dessa arquitetura teológica, Romanos 7 ocupa uma posição decisiva, pois, após declarar que o crente morreu para o pecado (cap. 6), Paulo antecipa uma objeção inevitável:
- se fomos libertos, por que o pecado ainda atua em nós?
- e mais: se a lei vem de Deus, por que ela parece intensificar o pecado?
Romanos 7 responde exatamente a essas questões, demonstrando que o problema não está na lei, mas na condição humana sob o poder da carne depravada. o capítulo protege a comunidade de dois extremos perigosos: o legalismo judaizante, que confia na lei para a santificação, e o antinomianismo (rejeição da lei) gentílico, que despreza a lei como se fosse má.
mas vamos entender um pouco mais das questões discutidas…
a lei é santa, o homem não
Paulo deixa claro: a lei não é o problema, ela é “santa, justa e boa”. o problema é o pecado, essa força real, ativa, que habita na carne humana e distorce tudo aquilo que Deus deu para a vida.
gosto de dizer que a lei funciona como um espelho, que revela nossa depravação e a glória de Deus.
só que aí é que está o problema: ela revela, mas não restaura. expõe o pecado, mas não o remove. como afirma Paulo, “sem a lei, o pecado é morto”, mas, quando ela chega, o pecado desperta, se fortalece e mostra sua verdadeira profundidade.
essa tensão já estava presente na experiência do povo de Israel — um povo que recebeu a revelação divina, mas não tinha o poder de obedecê-la plenamente. Paulo, então, usa a metáfora do casamento: o ser humano estava “preso” à lei, mas agora, pela morte com Cristo, está livre para uma nova união — não com regras externas, mas com o próprio Espírito.
o eu dividido: quando o querer não basta
chegando ao versículo 14, Paulo revela a genuína dor de todos os cristãos que entenderam sua depravação diante de um Deus tão santo. ele descreve o conflito interior: “o querer está em mim, mas não o realizar”.
perceba que, na citação, ele não culpa circunstâncias, cultura ou falta de esforço, mas reconhece que o pecado é um tirano interno. a carne não se reforma e jamais se reformará; ela resiste.
teologicamente, Paulo revela aqui a profundidade da natureza humana após a queda: não somos apenas pessoas que pecam, somos pessoas escravizadas pelo pecado, incapazes de, por nós mesmas, cumprir totalmente a vontade de Deus. a vontade é boa, mas a capacidade é fraca. somos miseráveis em nosso querer e realizar.
clímax: desespero e esperança
o capítulo culmina em um dos clímaxes mais intensos do novo testamento:
Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?
já me vi muitas vezes nesta situação de Paulo, diante da frustração de cometer algo que não queria. mas veja que, na mesma pergunta em que transparece desespero, há a resposta para este doloroso e temporário problema…
a chave está na pergunta: QUEM me livrará?
não o que, não como, não qual método espiritual. o grito aponta para uma Pessoa, e a resposta vem imediatamente: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!”
Cristo é nossa esperança contra nossa depravação. o conflito permanece real, mas agora existe libertação. o cristão não vive mais debaixo da tirania da carne, mas sob a graça. o capítulo 7 termina com tensão, mas aponta diretamente para uma grande vitória em Romanos 8.
por fim: santidade, consciência e dependência
faz alguns meses — sim, bastante tempo — que tenho meditado neste texto. e, se fosse trazer um grande aprendizado do que este capítulo nos traz, diria que ele nos liberta de dois extremos igualmente perigosos, dos quais, algumas vezes, já me vi:
- perfeccionismo espiritual, como se fosse possível viver sem luta interior;
- desistência espiritual, como se a luta provasse que estamos perdidos.
o perfeccionismo espiritual é algo falho porque ignora a realidade da nossa natureza decaída, gerando uma máscara de religiosidade que esconde o pecado em vez de confessá-lo. por outro lado, a desistência é o triunfo de nossa apatia e falta de perseverança, pois aceitamos a derrota diante das paixões como se a graça fosse uma licença para a estagnação.
mas ela não é! a verdade bíblica é outra, pois ela nos diz que a luta é evidência de vida espiritual, pois somente quem nasceu do Espírito sente essa guerra.
Como disse John Stott:
A verdadeira santidade não é ausência de conflito, mas presença de guerra.
A. W. Tozer completa este raciocínio dizendo:
A alma que luta pela santidade já está mais perto de Deus do que imagina.
enfim, Romanos 7 é um texto de profunda riqueza que nos apresenta toda a “anatomia” (se é que posso dizer assim) da santificação. sem Romanos 7, a santificação seria teórica; com ele, torna-se real, processual e totalmente dependente da GRAÇA.
no próximo texto falarei especificamente da graça e como ela atua na dinâmica da santidade progressiva na vida do cristão.
Deus abençoe.
até mais.