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a evitável tolice da autossuficiência

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vivemos em um mundo em que fomos treinados a buscar, a todo custo, a independência. independência de nossos pais, de outras pessoas, independência financeira, emocional, geográfica etc. quase como uma epidemia…

não me lembro de ter ouvido alguém dizer o quão boa é a dependência ou algo assim. acho que é o mesmo com a autossuficiência. ambos estão ligados, na verdade, porque carregam a mesma ideia: “não preciso de ninguém”. 

será?

eu já abandonei essa ideia faz tempo. honestamente, tenho vivido minha vida buscando me achegar cada vez mais a um lugar de dependência. e quero te mostrar uma perspectiva que, talvez, você nunca tenha enxergado sobre o assunto. 

vejamos o texto de Lucas 6, pois será nele que trabalharemos hoje…

²⁴ “Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam a sua consolação.
²⁵ Ai de vocês que agora têm fartura, porque passarão fome. Ai de vocês que agora riem, pois lamentarão e chorarão.
²⁶ Ai de vocês quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas”.
Lucas 6:24-26 | NVI

este texto é um dos textos mais fortes e desconfortáveis de Jesus. Ele fala de quatro bem-aventuranças (os pobres, os que têm fome, os que choram e os perseguidos) e, logo em seguida, traz estes quatro “ais”, que fecham a série de bênçãos do sermão do monte.

Lucas, diferente de Mateus, não apresenta apenas as bem-aventuranças — ele as emparelha com maldições correspondentes, em um paralelismo antitético quase perfeito:

  • pobres (v.20) × ricos (v.24)
  • famintos (v.21a) × fartos (v.25a)
  • os que choram (v.21b) × os que riem (v.25b)
  • odiados/perseguidos (v.22) × bem-falados por todos (v.26)

alguns estudiosos dizem que este sermão, embora seja semelhante, não é necessariamente o mesmo sermão de Jesus relatado por Mateus nos capítulos 5 a 7. meu foco aqui não é discutir isso, mas ressaltar estes versos que Lucas registrou e que Mateus não incluiu.

o primeiro ponto que merece ser notado é que esse paralelismo de Lucas não é um acidente retórico, mas um padrão de discursos proféticos que já vemos no Antigo Testamento e que é repetido aqui.

pense, por exemplo, em Isaías 5, Amós 6 e Habacuque 2, onde o “ai” (grego ouai) é um forte lamento, como se o profeta estivesse chorando antecipadamente por um destino que está se desenhando. 

aqui, Lucas está colocando Jesus explicitamente na linhagem dos profetas de juízo e consolo.

significado de “ai”

a palavra grega utilizada aqui é οὐαί (ouai), uma lamentação que quer dizer algo como:

que tragédia espera vocês.

e, dentro desse lamento que, segundo Lucas, Jesus faz, ele cita quatro grupos específicos: os ricos, os fartos, os que riem e os bem-falados. Jesus basicamente condena todos estes grupos.

mas o que Jesus quer dizer com isso? 

Jesus está condenando os ricos, os fartos, as pessoas de boa reputação e as pessoas que riem? 

porque, convenhamos, todas essas coisas são boas e não necessariamente más. 

então, o que tudo isso quer dizer?

vamos entender os “ais”.

“ai de vós, os ricos”

antes de tudo, já vamos deixar claro que aqui Jesus não está condenando a riqueza ou o dinheiro em si. até porque, se estivesse, o próprio Jesus estaria sendo muito incoerente, visto que, durante o livro de Lucas, ele se relacionou com alguns ricos que, segundo a própria narrativa, eram aprovados por Deus, como:

  • Zaqueu (depois do arrependimento);
  • mulheres que sustentavam Jesus financeiramente;
  • José de Arimateia;

logo, entendemos que o problema aqui não é o dinheiro em si, mas a confiança nele. observe a frase inteira:

Porque já receberam a sua consolação.

a palavra “consolação” (ἀπέχετε – apechete) era usada em recibos comerciais e seu significado é, literalmente:

Vocês já receberam o pagamento.

ou seja: vocês já desfrutaram da sua recompensa; todo o conforto de vocês está nesta vida; nada esperam do Reino.

essa ideia lembra a parábola do rico e Lázaro (Lucas 16), quando Abraão diz: “Tu recebeste os teus bens em vida…”

e essa lembrança não é à toa, visto que a ideia é a mesma.

após isso, Jesus passa para o seu segundo “ai”, mas o sentido das advertências permanece praticamente o mesmo durante todo o texto.

“ai de vocês, os que agora estais fartos”

nessa parte, a palavra mais importante é “agora”. Lucas enfatiza isso, deixando claro que não se trata de uma condenação à alimentação, mas de um contraste escatológico:

  • hoje satisfeitos;
  • depois vazios.

a ideia é que os famintos de hoje serão satisfeitos no Reino.

“ai de vocês que agora riem”

aqui, novamente, Jesus não condena a alegria, porque, se o fizesse, estaria se contrariando outra vez. a Bíblia manda, por diversas vezes, que nos alegremos.

o verbo utilizado aqui sugere algo próximo de viver despreocupadamente. ou seja, é a vida sem consciência de Deus.

lembra Eclesiastes e o quanto ele trata da vida hedonista?

Comer, beber e viver como se Deus não existisse.

o “riso” aqui representa hedonismo (uma vida focada no prazer) e autossuficiência.

“ai de vocês quando todos falarem bem de vocês”

por fim, o último “ai”, talvez seja um dos mais perigosos. Jesus faz uma referência aos profetas dizendo:

Assim fizeram com os falsos profetas.

isso porque, no Antigo Testamento, os verdadeiros profetas eram odiados pelas pessoas de sua época por falarem o que lhes desagradava. traziam as palavras de juízo de Deus para o povo e, por conta disso, foram perseguidos, mortos, maltratados etc.

os falsos profetas, por outro lado, sempre diziam o que o povo queria ouvir e, por isso, todos os elogiavam.

Jesus está dizendo algo como:

Se ninguém se incomoda com sua mensagem, talvez ela não seja realmente a minha.

isso não significa que todo cristão precise ser desagradável ou insuportável. significa que a fidelidade ao evangelho inevitavelmente produz oposição em algum momento. e, de fato, se não produzir, alguma coisa está errada.

e o que tudo isso nos diz hoje?

isso não é uma condenação moral da riqueza material em si, nem uma glorificação romântica da pobreza. o alvo é a autossuficiência que substitui a dependência de Deus. riqueza, fartura, riso fácil e aprovação social funcionam como consolos substitutos que fecham a pessoa para o Reino que ainda vem.

a pergunta que o texto faz ao leitor, e que eu quero te fazer agora, não é: “você é rico ou pobre?”, mas: “onde está ancorado o seu consolo?”

porque, se sua esperança e sua fé estão ancoradas nos seus bens, “ai” de você, como diz o próprio Jesus.

Jesus está claramente denunciando uma postura de vida em que a pessoa:

  • encontra sua segurança apenas nos bens;
  • vive satisfeita sem depender de Deus;
  • busca conforto acima da fidelidade;
  • prefere a aprovação humana à verdade.

esses “ais” nos dizem que quem já encontrou sua recompensa apenas nesta vida corre o risco de não desejar o Reino de Deus. 

o Senhor nos chama para olhar além do que temos. Jesus nos chama para um lugar de dependência e confiança. Ele nos mostra que aquilo que parece vantagem agora pode revelar-se perda diante de Deus, enquanto aqueles que hoje dependem dEle serão plenamente consolados no Reino.

enfim, pense nisso. a dependência do Senhor é o melhor lugar para se estar.

Deus abençoe.

até mais.