estou aqui em mais um dos raros momentos, muito raros ultimamente, em que simplesmente pego meu computador e começo a escrever – sem objetivos, sem buscar palavras bonitas, sem tentar te levar a algum lugar – mas apenas esvaziando o que está em minha mente. mais um pensamento randômico.
escrevo do campus da principal faculdade de Dublin, Trinity College, a céu aberto, em um banco de madeira, pós-aula, aproveitando o belo e caloroso dia que faz hoje. aliás, quão quentes têm sido os últimos dias. ontem chegou a fazer 30 graus, evento raro em terras irlandesas.
mas o que me faz escrever hoje, acredito eu, seja um incômodo dentro de mim, que não é de hoje, mas que tem se transformado em um conflito interno entre EU x Eu mesmo. tenho me feito uma pergunta, recentemente: como faz para desacelerar?
analisando minha vida, notei que sou um cara naturalmente muito ligado a resultados, performance, crescimento. como se minha cabeça estivesse naturalmente neste lugar e apenas a possibilidade de estar parado me irritasse, como se o tempo estivesse se perdendo.
na verdade, acho que a grande mudança que fiz em minha vida me trouxe muitos sentimentos, parte deles novos, com os quais eu ainda estou aprendendo a lidar. mudar de país, largar (ou pausar) uma vida inteira para trás para correr atrás de algo que, honestamente, eu nem sei direito. isso é doideira.
e é válido ressaltar que, quando digo que não sei direito, não estou me referindo ao aprendizado de inglês. é claro que este foi um dos grandes motivos pelos quais vim morar na Irlanda. no entanto – e eu falei isso com muitas pessoas próximas de mim, por diversas vezes – sempre houve algo a mais.
eu sempre soube que Deus me trouxe para cá para um propósito maior. Ele não me deu muita opção sobre vir para cá ou não. foi algo muito claro – e rápido.
em um mês Ele me tira do trabalho no qual imaginei que ficaria por anos. sonhei com uma demissão, um dia depois fui desligado. ali eu sabia que era coisa de Deus – e Ele me concedeu a graça de avisar antes que acontecesse. que Deus bom eu tenho!
um mês após isso, estava com todas as passagens compradas para vir à Irlanda. pouco tempo depois, aqui estava, com um sonho, muitas ambições, mas ainda sem muitas direções ou respostas sobre o que, de fato, vim fazer aqui.
acho que Deus tem começado a me responder sobre isso. quase 1 ano aqui e algumas coisas têm ficado mais claras. mas tenho que me contentar com as pequeníssimas doses de revelação que o Senhor me dá com o tempo. e glória a Deus por isso.
quando Deus chama Saulo, por meio de Ananias, ele diz claramente que não iria revelar a Saulo as coisas que ele sofreria por Deus. não há uma explicação do motivo, mas imagino eu que Deus sabia que, se contasse tudo para Paulo, ele ia pular do barco antes mesmo da jornada começar.
acredito que, se Deus me mostra tudo, é capaz de eu pular também. glória a Deus que Ele trabalha em nossas vidas conforme nossas limitadas capacidades.
enfim, sempre fui muito acelerado. movido pelo sucesso de minha carreira, pela quantia de dinheiro que ganhava e pelas ambições de construir uma vida bem-sucedida.
mas Deus tem me balançado sobre isso. de tal forma que já compreendi em meu coração que já sou bem-sucedido em Cristo. e que a melhor vida que eu possa ter está na vontade de Deus. mesmo que seja completamente diferente do que almejo ou do que imaginei.
só que esse processo de transição e entendimento é chato. para quem media o sucesso de sua vida baseado principalmente na carreira, estar trabalhando como auxiliar de limpeza em outro país, de certa forma, feriu uma parte do meu interior. não por ego, vergonha ou por orgulho. não vejo problema nenhum na profissão.
mas sim porque não estar trabalhando com o que tanto almejei e estudei para fazer me dá uma tremenda sensação de estagnação. a todo momento sinto que não estou evoluindo, estou parado, tô perdendo minha vida.
outra parte de mim – essa a mais sensata – sabe que tudo isso não chega perto de ser verdade. para um jovem de 24 (quase 25) anos como sou, tenho vivido muito em tão pouco tempo.
- mudei de país;
- tenho aprendido um novo idioma;
- tenho construído uma bagagem multicultural gigante;
- tenho trabalhado com outras coisas e adquirido habilidades e experiências das quais nunca irei esquecer;
- estou, atualmente, fazendo 2 seminários de teologia online;
- tenho sido levado a viver algo em meu ministério completamente diferente, novo, desafiador e empolgante com Deus;
- tenho aprendido MUITO.
isso parece tudo, menos alguém que está parado, confortável, não crescendo.
cheguei à conclusão de que estou dividido entre duas definições do que significa crescer.
a primeira fala a respeito de carreira, dinheiro, subir profissionalmente, construir patrimônio, independência. essa foi a definição que, até aqui, estava sendo usada para eu guiar minha vida.
a segunda, todavia, diz respeito à caminhada com Deus, viver o presente (sem pensar em performance ou planejar próximos passos), aprender a depender mais do Senhor e ter menos controle das coisas, amadurecer como pessoa, como homem. essa é a definição que tem ganhado forma em meu ser.
na perspectiva da primeira, tenho fracassado; na perspectiva da segunda, estou no caminho.
a todo momento me cobro para me mover, fazer o necessário para ter mais dinheiro, entrar na minha área, empreender… mas ao mesmo tempo eu não quero.
depois de viver tão acelerado nos últimos anos, me parece bom desacelerar e simplesmente aproveitar essa fase da vida, entender o que Deus tem feito.
dos quase 1 ano que estou aqui, passei 7 meses tendo 2 empregos e dormindo 4 horas por dia.
para quê? mais dinheiro.
consegui? sim.
e agora?
saí do último emprego em abril, porque entendi justamente isso. eu posso trabalhar a rodo, ter mais dinheiro, construir patrimônio, fazer o que for…
mas não preciso disso agora. Deus tem me assegurado tudo o que eu preciso.
desacelerar, curtir o momento, não querer fazer tudo com a força do meu próprio braço, confiar que Deus está cuidando, descansar.
acho que esse é o caminho. aos poucos tenho aprendido.
Deus abençoe.
até mais.