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minha confissão de fé teológica

Autor(a):

em minha vida de fé, fui graciosamente supreendido com um gosto por conhecer a Deus através da palavra e do estudo bíblico. e nesta temporada de minha vida, em especial, tenho sido levado pelo Senhor a buscar mais conhecimento de maneira formal no estudo teológico – através de leitura, cursos e seminários.

e é claro que nessa busca por mais conhecimento, algumas opiniões no que diz respeito a alguns assuntos secundários do evangelho passam a ser formados em meu ser.

e quando digo secundários, me refiro ao fato de que, grande parte destas coisas não alteram a verdade do evangelho, que resumidamente é: Criação, por meio do Deus triuno; Queda, por meio do homem; Redenção única e exclusivamente por meio de Cristo Jesus; Consumação, por meio do Deus triuno e da volta de Jesus Cristo.

diversos teólogos diferem em partes destes assuntos, mas concordam na base citada acima, e isso é o mais importante.

com isso, decidi fazer uma confissão de fé a respeito do que eu hoje acredito. tenho total ciência de que com maturidade no ministério e na caminhada com o Senhor, grande parte destas opiniões podem ser alteradas, afinal, todas estas opiniões foram formadas no início de minha vida academica na área, bem como no meio da imaturidade de minha juventude.

mas hoje, posso dizer que minha confissão de fé, no que diz respeito a algumas das principais áreas da teologia, se classificam da seguinte forma:

antes de tudo, acho importante ressaltar que minha fé cristã está fundamentada na convicção de que Deus se revelou de modo verdadeiro, suficiente e autoritativo nas sagradas escrituras, e que toda doutrina, prática, experiência espiritual, missão da igreja e esperança escatológica deve ser examinada à luz da palavra de Deus. ela é a base para tudo o que vem depois.

não desejo, de forma alguma, construir minha teologia a partir de preferências pessoais, modas eclesiásticas ou meras tradições humanas, mas a partir da submissão reverente à escritura, em dependência do Espírito Santo e em diálogo com a igreja ao longo da história.

com isso, minha confissão de fé busca ser bíblica, cristocêntrica, pastoral e coerente. ela não pretende ser um exercício de rigidez sistemática vazia, mas uma expressão sincera daquilo que hoje entendo que a bíblia ensina sobre Deus, a salvação, a igreja, a missão, o Espírito Santo, o fim dos tempos e a autoridade da palavra.

1. bibliologia: minha doutrina das escrituras

hoje creio que a bíblia é a palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo, escrita por autores humanos reais e confiáveis, por meio dos quais Deus comunicou de forma verdadeira tudo aquilo que quis revelar ao seu povo. por isso, reconheço a escritura como plenamente autoritativa, suficiente, confiável e normativa para a fé e para a prática cristã.

entendo que toda a escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, corrigir, repreender e instruir em justiça. a bíblia não é apenas um registro humano de experiências religiosas, mas a revelação escrita de Deus, dada para conduzir o homem ao conhecimento da verdade, à salvação em Cristo e à vida piedosa. 

por isso, nenhuma experiência espiritual, tradição eclesiástica, opinião teológica ou suposta revelação pode ocupar o mesmo lugar da escritura ou corrigi-la. ela esta acima de qualquer pessoa, obra ou tradição humana implantada pela igreja.

creio também que a bíblia é suficiente para tudo o que diz respeito à salvação e à vida cristã. isso não significa que ela responda diretamente a toda curiosidade humana, mas que ela contém tudo o que é necessário para conhecer a Deus, crer em Cristo, viver em santidade, servir na Igreja e cumprir a missão cristã. sua mensagem central é clara, especialmente no que diz respeito ao evangelho, ao caráter de Deus e ao chamado à fé e à obediência.

ademais, reconheço a unidade profunda da escritura. apesar da diversidade de gêneros, contextos, autores e momentos históricos, toda a bíblia converge para a revelação de Deus em Cristo e para a história da redenção. assim, procuro le-lá com reverência, dependência do Espírito Santo, sensibilidade ao contexto e compromisso com sua aplicação fiel à vida da igreja.

não há, de forma alguma, a possibilidade de clareza e entendimento das escrituras e de sua mensagem sem a revelação do Espírito Santo. Ele é quem nos guia ao conhecimento de Deus e sua vontade através da palavra.

2. soteriologia: minha doutrina da salvação

creio que o homem, em seu estado natural, está profundamente corrompido pelo pecado, espiritualmente morto e incapaz de vir a Deus por si mesmo. a queda afetou radicalmente a natureza humana, de modo que ninguém busca a Deus de forma salvadora sem a ação prévia da graça divina. por isso, toda salvação é, do início ao fim, fruto da iniciativa de Deus. nada bom existe, se não o Senhor.

ao mesmo tempo, creio que Deus oferece uma graça preveniente, uma ação inicial de sua graça, por meio da qual o homem (todos, sem exceção) é habilitado a compreender o evangelho, ser confrontado pela verdade e responder ao chamado de Deus. assim, mantenho juntas duas realidades bíblicas: 

  1. a incapacidade do homem caído;
  2. e a iniciativa graciosa de Deus que torna possível a resposta de fé.

creio que a eleição é real, mas a compreendo que ela é condicionada à presciência divina. ou seja, entendo que Deus, em sua soberania, elege para a salvação aqueles que Ele sabia que creriam em Cristo mediante a graça por Ele mesmo concedida. 

a salvação continua sendo inteiramente de Deus, mas não entendo a eleição como uma escolha arbitrária de indivíduos sem qualquer relação com a resposta de fé. para mim, a presciência divina não diminui a soberania de Deus; antes, expressa sua onisciência e seu governo perfeito sobre a história da redenção.

quanto à obra de Cristo, creio que sua expiação é suficiente para todos, mas eficaz para os que creem, somente. vejo na escritura tanto a universalidade da oferta da salvação quanto a eficácia real da cruz naqueles que de fato são salvos. ou seja, vejo que Cristo morreu por todos, mas que os benefícios salvíficos de sua morte se aplicam eficazmente aos que creem somente.

sobre a graça salvadora, entendo que o chamado externo do evangelho pode ser resistido, mas que a graça regeneradora de Deus é eficaz. ou seja, o homem pode resistir ao apelo inicial (graça preveniente), endurecer-se e rejeitar a verdade; contudo, quando Deus opera regeneração verdadeira, essa graça não falha em produzir fé genuína. ainda reconheço certa tensão aqui, mas minha posição tende a distinguir entre a resistência ao chamado externo e a eficácia da obra interna do Espírito. divido a graça aqui, entre previniente e salvadora.

creio também na perseverança dos santos. não acredito em apostasia no sentido de um verdadeiro regenerado perder a salvação. entendo que aqueles que realmente nasceram de novo serão guardados por Deus até o fim. a perseverança do crente não repousa em sua própria força, mas na fidelidade de Deus que preserva os seus.

em resumo, minha soteriologia não é nem 100% calvinista, nem 100% arminiana. ela pode ser descrita, talvez, como uma posição próxima de um arminianismo reformado, com forte ênfase na depravação humana, na necessidade absoluta da graça, na eleição segundo a presciência, na eficácia da graça regeneradora e na perseverança final dos salvos.

3. pneumatologia: minha doutrina do Espírito Santo

creio que o Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, plenamente Deus, eterno, pessoal e ativo na criação, na revelação, na salvação, na santificação e na vida da Igreja. Ele não é uma força impessoal, mas o próprio Deus agindo em comunhão com o Pai e o Filho.

creio que todo verdadeiro cristão recebe o Espírito Santo no momento da conversão. por isso, não entendo o batismo no Espírito como uma experiência posterior obrigatória, mas como a própria obra inicial de Deus que une o crente a Cristo, o incorpora ao corpo e o sela para o dia da redenção. não vejo base bíblica para uma divisão entre cristãos “comuns” e cristãos de uma classe espiritual superior por causa de uma segunda experiência normativa.

ao mesmo tempo, creio que o Espírito Santo continua distribuindo dons à igreja hoje. não sou cessacionista. entendo que todos os dons espirituais podem continuar existindo, desde que compreendidos e exercidos debaixo da autoridade da escritura, para a edificação da Igreja e para a glória de Deus, e não para exaltação pessoal, manipulação espiritual ou espetáculo religioso.

minha posição sobre profecia é continuísta, mas cautelosa. admito a possibilidade de manifestações proféticas hoje, porém não atribuo a elas caráter normativo, infalível ou equiparável à escritura. toda alegação profética deve ser julgada, examinada e submetida à palavra de Deus e ao discernimento da comunidade cristã.

sobre o dom de línguas, reconheço minha cautela e minhas reservas. entendo que em Atos as línguas aparecem principalmente como idiomas reais, com função de sinal e confirmação do agir de Deus. já em 1 Coríntios, admito que pode haver uma forma de linguagem espiritual voltada à oração e à edificação pessoal, desde que seu uso público seja regulado, interpretado e submetido à ordem bíblica. portanto, não nego a possibilidade do dom, mas rejeito sua banalização, sua obrigatoriedade ou sua utilização como termômetro de espiritualidade.

creio que o Espírito Santo não age contra a Palavra nem independentemente dela. Ele pode agir de maneira viva, pessoal, poderosa e surpreendente, mas sempre em conformidade com a verdade já revelada nas escrituras. experiência espiritual, para mim, é algo real e importante, mas deve ser regulada pela bíblia, discernida pela Igreja e orientada para a exaltação de Cristo.

4. escatologia: minha doutrina das últimas coisas

creio que o Reino de Deus já foi inaugurado na primeira vinda de Cristo e está presente agora de forma real, embora ainda não consumada. Cristo reina hoje à direita do Pai, e a igreja vive entre o “já” e o “ainda não” do Reino.

minha posição escatológica é essencialmente amilenista histórica. entendo que o milênio de Apocalipse 20 deve ser lido simbolicamente, não como um reinado literal de mil anos futuros na terra, mas como uma representação da presente era da igreja, na qual Cristo reina e satanás está limitado em relação ao engano das nações e ao avanço do evangelho.

leio o Apocalipse de forma predominantemente simbólica e recapitulatória, e não como uma linha cronológica rígida de eventos finais. reconheço o caráter intensamente apocalíptico do livro e, por isso, entendo que seus números, imagens e visões devem ser lidos com sensibilidade literária e teológica.

quanto à tribulação, creio que ela caracteriza toda a era da igreja, mas também será intensificada de maneira extraordinária no fim da história. portanto, não acredito que a igreja escapará previamente de todo sofrimento final. minha inclinação é pós-tribulacionista moderada, entendendo que a Igreja passará pela tribulação intensificada, sendo preservada espiritualmente por Deus no meio dela.

creio em uma única vinda visível, gloriosa e final de Cristo. não separo arrebatamento e segunda vinda em dois eventos distintos. entendo que o arrebatamento ocorre na vinda de Cristo, quando os mortos ressuscitam, os crentes vivos são transformados e todos são reunidos ao Senhor.

creio também na ressurreição geral dos justos e injustos e em um único juízo final, no qual Cristo julgará vivos e mortos. depois disso, haverá novos céus e nova terra, e o Reino de Deus será plenamente consumado.

minha esperança escatológica não é escapar do mundo, mas perseverar com fidelidade até o fim, aguardando a plena manifestação do Reino e a vitória final de Cristo.

5. missiologia: minha doutrina da missão

creio que a missão pertence primariamente a Deus. a igreja não inventa a missão; ela participa da missão de Deus. o Pai enviou o Filho, o Pai e o Filho enviaram o Espírito, e o Cristo ressurreto envia sua Igreja ao mundo. por isso, entendo a missão cristã a partir da lógica da Missio Dei.

a Grande Comissão ocupa lugar central em minha compreensão da missão. creio que a igreja foi chamada a fazer discípulos de todas as nações, batizando, ensinando e formando pessoas em obediência a Cristo. a missão não é apenas evangelizar no sentido estreito, nem apenas realizar ação social; ela inclui proclamação do evangelho, discipulado, formação espiritual, serviço prático e testemunho público do Reino de Deus.

creio que a missão da igreja é universal, atravessando culturas, povos, línguas e contextos históricos. o evangelho deve ser proclamado a todos, e a igreja deve viver como sinal visível do Reino de Deus no mundo.

os dons espirituais e ministérios servem à missão. evangelistas proclamam, pastores cuidam, mestres formam, profetas edificam, líderes organizam, servos ajudam, e toda a Igreja participa do testemunho cristão. não vejo a missão como tarefa de uma elite, mas como vocação de todo o corpo de Cristo, cada membro contribuindo conforme a graça recebida.

também creio que a missão inclui amor prático, justiça, misericórdia, serviço aos necessitados e demonstração concreta do caráter de Cristo. não separo evangelho proclamado de evangelho encarnado. ainda assim, mantenho que a missão integral não pode perder a centralidade da proclamação de Cristo e do chamado ao arrependimento e à fé.

6. eclesiologia: minha doutrina da Igreja

creio que a igreja é o corpo de Cristo, o povo de Deus e o templo do Espírito Santo. ela é composta por todos os verdadeiros crentes, unidos a Cristo pela fé, regenerados pelo Espírito e chamados à comunhão, à santidade, à adoração, ao discipulado e à missão.

entendo a igreja como realidade ao mesmo tempo espiritual e visível. ela é espiritual porque sua vida vem do Espírito; e é visível porque se manifesta em comunidades locais, reunidas em torno da palavra, dos sacramentos, da oração, da comunhão e do serviço.

creio que a igreja deve ser ordenada, governada biblicamente e conduzida por liderança serva. vejo valor em estruturas de governo e disciplina eclesiástica, e entendo que pastores e líderes devem servir ao povo de Deus com humildade, responsabilidade e fidelidade doutrinária.

os dons e ministérios existem para a edificação do corpo. cada membro da igreja tem lugar e função. a igreja saudável não é aquela em que poucos fazem tudo, mas aquela em que o corpo inteiro serve, amadurece e participa da missão de Deus.

creio no batismo e na ceia do Senhor como ordenanças ou sacramentos instituídos por Cristo. não os entendo magicamente, mas também não os trato como meros símbolos vazios. vejo neles sinais da graça, instrumentos de fortalecimento da fé e expressões da comunhão do povo de Deus com Cristo e uns com os outros.

a igreja deve ser comunidade de amor, verdade, serviço, adoração e discipulado. deve acolher, corrigir, ensinar, enviar e testemunhar. não existe para si mesma, mas para a glória de Deus e para o anúncio de Cristo ao mundo.

síntese final da minha posição teológica

reunindo tudo, minha fé hoje pode ser descrita assim:

minha bibliologia é reformada, alta e prática, afirmando a inspiração, suficiência e autoridade suprema da Escritura.

minha soteriologia é próxima de um arminianismo reformado, com forte ênfase na depravação humana, na graça preveniente, na eleição segundo a presciência, na eficácia da graça regeneradora e na perseverança dos santos.

minha pneumatologia é reformada continuísta moderada, aberta à atualidade dos dons, mas regulada pela palavra e pelo discernimento da igreja.

minha escatologia é amilenista histórica com inclinação pós-tribulacionista moderada, afirmando o Reino já presente, o milênio simbólico, a tribulação intensificada no fim, a única volta visível de Cristo, a ressurreição geral e o juízo final.

minha missiologia é integral, cristocêntrica, guiada pela Missio Dei e centrada na grande comissão, entendendo a missão como proclamação, discipulado e demonstração prática do Reino.

minha eclesiologia é reformada, ordenada, comunitária e missionária, com forte ênfase no corpo de Cristo, na edificação por meio dos dons, na centralidade da palavra, no valor dos sacramentos e no serviço mútuo.